Início » Investigação » Uma concepção de cidade

Uma concepção de cidade

Screen Shot 2014-11-23 at 17.47.50

 

A cidade romana é um espaço político-administrativo e social constituído por um núcleo urbano e um território de dimensões variáveis, no qual podem observar-se vici, eventualmente aldeias, villae e casais, coincidente com o quadro funcional e de identificação da vida na antiguidade. Desta forma, a cidade provincial representa a unidade individual, ao nível da comunidade local, da estrutura geral de organização administrativa no quadro da região e da província.

O desconhecimento dos planos urbanísticos da quase totalidade das cidades romanas, em grande parte devido à ocupação continuada até aos dias de hoje, lança os historiadores e arqueólogos que trabalham em ambiente urbano para um estado quase obsessional de tentativa de reconstrução desses planos.

A centralização da análise da cidade romana neste elemento concreto que é o desenho do núcleo urbano central resulta, por um lado, da complexidade da abordagem integrada dos seus diferentes sectores e, por outro lado, da atribuição de importância basilar ao conhecimento da expressão formal desta particular forma de ocupação do solo.

A investigação sobre as cidades romanas tem sido, por isso, pautada por uma abordagem segmentada, com carácter fundamentalmente descritivo, incidindo prioritariamente na recuperação de planos urbanísticos, de edifícios ou sectores do plano estruturante da cidade.

Evidentemente que outro tipo de estudos, nomeadamente os que se relacionam com a estrutura social, reconstituível com base em estudos de epigrafia, ou com a economia, têm merecido atenção particular dos investigadores. Estes aspectos, porém, têm sido tratados, frequentemente, de forma compartimentada, como se se tratasse de capítulos que se sucedem uns aos outros com vagos elos de ligação. Trabalhos como aquele que Phillipe Leveau elaborou para Cesareia da Mauritânia [LEVEAU; ]são, ainda, francamente minoritários e, no contexto português, exceptuando Conimbriga, são inexistentes.

Se nos situarmos no caso concreto de Pax Iulia, a ilustração do que afirmamos é exemplar. Nos últimos quatro anos surgiram uma boa meia dúzia de artigos onde se esgrimiram argumentos tendentes a fixar a data de fundação e da atribuição do estatuto de colónia romana à cidade, baseados apenas numa parcela da matéria a que deverá apelar-se para analisar esta questão. Prescindiu-se, por exemplo, dos dados arqueológicos, menorizando a carga informativa que transmitem, nomeadamente a que temporaliza a instalação dos habitantes da civitas. Tomou-se a cidade como uma entidade autónoma dos habitantes, como se esta se definisse por uma suposta data e um estatuto.

Cidade, para nós, só existe quando um determinado espaço se dota de instituições, se materializa por edifícios e equipamentos (qualquer que seja o seu tipo), e se preenche de indivíduos que, enquadrados por um estatuto jurídico, animam e constituem o elemento fundamental da emergência desses equipamentos. Não há sectores primários e secundários numa cidade; há um leque vasto de factos de natureza variada que se interpenetram e dinamizam mutuamente, não obstante a desigual capacidade de influenciar a evolução.

Sendo a civitas uma unidade territorial constituída pelo inseparável binómio, núcleo urbano central e espaço rural, objectivamente, o seu estudo deveria ser feito em simultâneo.

O processo de apreensão dos elementos constitutivos da paisagem urbana e rural, correspondendo a uma fase descritiva do discurso analítico, com incidência apenas nos aspectos relativos à imagem visual dos espaços constituintes, é, operativamente, uma fase fundamental da abordagem. Estima-se que desta resulte a construção do quadro base de investigação, o objecto, o qual, representando uma realidade material que serve de suporte ao vasto corpo de realizações materiais, sociais e simbólicas que caracterizam um determinado modus vivendis, tomar-se-á como ponto de partida para análises, individualizadas ou integradas, do conjunto dos constituintes da civitas e ao qual se deve regressar após obtida a resposta às diversas questões que procedem da sua existência enquanto espaço vivido numa determinada dimensão temporal.

A recuperação desse objecto fundamental, no entanto, em si mesmo, não contém os elementos explicativos ou de aproximação ao conhecimento da cidade. Destituída da sua dimensão de sujeito, a cidade emerge apenas como uma forma imóvel e, por consequência, sem vida.

Uma cidade abordada apenas do ponto de vista da forma, da espessura, da variabilidade das diferentes partes que a constituem, permite somente percepcionar uma composição da paisagem material/monumental. Ora essa imagem da cidade, em observação estática, como a que nos proporcionam as fotografias aéreas, por exemplo, é confrangedoramente redutora e parcial porque amputada dos elementos da dinâmica de funcionamento interno e externo e da dimensão temporal.

A investigação sobre cidades romanas visando a reconstituição dos seus planos urbanísticos, mesmo nos casos raros de conservação de grande parte das estruturas, deverá fazer uso de um inequívoco, variado e substantivo material do qual se deve privilegiar o de natureza arqueológica. Em situações em que a estas se sobrepôs uma estratigrafia de ocupação até à actualidade, ao accionamento de todos os procedimentos metodológicos de natureza técnica e científica deve adicionar-se uma sistemática vigilância de qualquer intervenção no subsolo, tarefa que ultrapassa largamente o trabalho do arqueólogo, solicitando a articulação e colaboração do conjunto de entidades responsáveis por essas intervenções.

A presunção de que certas expressões formais, mais ou menos evidentes, atestam no solo a marca de certos equipamentos ou representam fragmentos de uma determinada organização espacial de origem serve apenas como um dos conteúdos de reflexão e prospecção mas, em caso algum, sem confirmação prévia, como elemento de suporte ao desenho reconstitutivo.

Entre os especialistas do urbanismo antigo há muito se esclareceu o equívoco resultante da definição de Roma, por Bianchi Bandinelli, como o centro do poder, e as capitais provinciais como centros de expressão desse poder, definição que condicionou a investigação no sentido de procurar, nas cidades provinciais, os elementos que pudessem afirmar o seu carácter de vitrine da Urbe.

Ninguém hoje questiona a multiformidade modelar da cidade romana, resultante da especificidade da sua situação, das condições de fundação (ex nihilo ou sobre aglomerado anterior), tamanho, organização interna, papel na vida local e regional. A diversidade de configuração e ordenação espacial das cidades romanas contraria esse ideal de normalização, que sistematicamente se viu dificultado por condicionalismos de natureza diversa: topografia, instalação de comunidades indígenas, etc. O pragmatismo romano assimilou bem estes obstáculos e o resultado pode ser traduzido, de uma forma abrangente, pela afirmação de P. Gros: “verificamos que os urbanistas romanos se preocuparam menos com o rigor geométrico que com a coerência estrutural e, em particular, com os componentes religiosos, que eram por definição os espaços de importância significativa” [GROS, 1994, 48].

Esta afirmação traduz uma pragmática opção pela valorização dos aspectos fortes da realização urbana dos Romanos, organização prática e coerente, e destaque das componentes de representação simbólica que lhe são inerentes e, ao mesmo tempo, como uma clara proposição de análise do urbanismo das cidades antigas.

A multiformidade não ignora, porém, a evidência de que um leque fundamental de edifícios estava sistemática e obrigatoriamente presente em qualquer cidade e que estes, por sua vez, em função das actividades a que se destinavam, obedeciam, por princípio, a uma lógica de implantação espacial que, em maior ou menor grau, determinava a organização interna da cidade. Do mesmo modo, não se renega a premissa de que, além da funcionalidade específica, os monumentos públicos da cidade assumiam o papel de expositores permanentes da qualidade de vida que a civitas estava em condições de oferecer.

A investigação actual dispõe de um vasto corpo de princípios teóricos e práticos que lhe permitem assumir e compreender a complexidade dos organismos vivos que são as cidades e verificar a ineficácia do tradicional debate estritamente planimétrico, sobre a maior ou menor regularidade dos esquemas de base e do carácter distributivo da sua trama ortogonal [GROS, 1994, 48].

De qualquer modo, teoricamente, partindo de alguns equipamentos urbanos, nomeadamente daqueles que se situavam no forum, pode ensaiar-se reconstruir um plano urbanístico, reportando-o a um qualquer protótipo ou adaptando o protótipo à situação local. Balty afirma que estes equipamentos correspondem a esquemas modelares: “Au delà de l’apparente diversité des réalisations particulières certains schémas directeurs rendaient compte de relations subtiles dans un ensemble clairement organisé dont les principaux éléments constituants projectent toujours une même image, rapports élémentaires de mise en évidence ou de sujétion entre les monuments, perspectives caractéristiques qui ne seraient pas exclusivement dues à des contingences topographiques locales, schémas peut-être, qui, pour des raisons d’orientation ou des exigences de circulation, mais surtout au plan idéologique ou par imitation de formules mises à l’honneur par une construction célèbre de l’Urbs, regiraient alors l’implantation du Capitole, de la curie et de la basilique.

O forum é o centro político e administrativo e, enquanto espaço privilegiado de manifestação e demonstração de poder, articula-se num esquema modelar funcional em que os edifícios assumem o seu significado nas relações que se projectam entre cada um deles e no conjunto. Ensaiar, porém, um modelo organizativo do conjunto da cidade partindo deste complexo monumental é excluir a possibilidade, reafirmada por múltiplos exemplos, à escala do Império e da Hispânia, de variantes e de diversidade de fórmulas urbanísticas.

Mas admitindo partir do forum para a reconstituição dos tecidos urbanos, devem previamente estabelecer-se como condições a existência de um conjunto de vestígios de inquestionável interpretação funcional e cronológica, e a salvaguarda da possibilidade de eventuais singularidades resultantes de condicionalismos próprios, topografia do local de implantação, ocupação anterior ou qualquer outra razão de natureza política e jurídica relacionada com a função dessa civitas no contexto local e regional e da sua representação nesse espaço global que é o mundo romano.

A pertinência e utilidade destas reconstituições só tem sentido se não se pretender confundir urbanismo com identidade da cidade mas, ao invés, entendê-lo como cenário, como base territorial de uma particular associação humana que se constitui por um quadro de vida social em que os indivíduos se relacionam ou não de forma segmentada e como uma série de instituições que representam o poder, celebrado e simbolizado, nas suas diferentes formas e na materialidade dos edifícios e monumentos que se edificam no núcleo urbano.

Anúncios
Anúncios