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A sociedade Pacense

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José d’Encarnação, baseando-se num extenso repertório de dados, que meritoriamente elaborou e interpretou, à escala do Conventus Pacensis, sublinhou o carácter parcial das informações de natureza sociológica fornecidas pelas inscrições, afirmando “não são tão vastos e variados os testemunhos que possibilitem uma visão total” mas, ainda assim, apesar de enormes dificuldades relacionadas com a complexidade da problemática “suscitada por cada uma das componentes sociais”, admite que aqueles se possam utilizar para “distinguir classes sociais e integrar nelas os indivíduos epigraficamente conhecidos; determinar a importância de cada uma das classes na vida político-administrativa, económica e cultural; definir a sua origem geográfica; atribuir-lhe ou não uma ideologia própria” [ENCARNAÇÃO, 1984, 761].

Foi com base nas epígrafes que Manuela Alves Dias e Jorge de Alarcão se referiram a aspectos pontuais da sociedade pacense. A primeira, baseada nos registos relativos aos cultos praticados na cidade, deduziu para Pax Iulia um perfil sociocultural de uma cidade comercialmente activa [DIAS, 1981, 33-39]. O segundo, perante a constatação de um elevado número de libertos, grupo tradicionalmente ligado a actividades comerciais e industriais, justificou a hipótese da valorização destas actividades na capital da civitas [ALARCÃO, 1990, 435].

Acreditando que, apesar de pobre e monótona, a epigrafia de Pax Iulia tem algum valor percentual representativo dos diferentes grupos do tecido social da civitas ao longo dos séculos abrangidos pelas fontes epigráficas, ensaiaremos reconstituir, sem qualquer pretensão de exaustividade, um quadro de informações relativas à sociedade de Pax Iulia.

Pretendemos, sobretudo, averiguar quais os dados que se podem recuperar, qual a sua natureza e que deduções nos permitem, não apenas na estrita componente sociológica, mas na relação desta com outras—cultural, religiosa, económica, etc. Sobretudo, desejamos temporalizar e espacializar as informações e valorizar o seu comportamento diacrónico e dialéctico numa estreita relação com o processo de romanização desta região.

Objectivando o cruzamento diacrónico dos distintos níveis de informação, o inquérito incidirá sobre todo o território, separando devidamente o espaço urbano, do espaço rural. A confrontação dos dados dos dois espaços deverá permitir averiguar os eventuais elos de convergência e/ou de divergência e ruptura, os quais nos capacitarão na elaboração de critérios e definição de características que permitam ou inviabilizem o esboço de um perfil da sociedade da civitas de Pax Iulia.

O quadro social e as relações que nele se estabelecem têm uma dinâmica própria consoante as sociedades e os tempos, pelo que a dimensão temporal se torna incontornável. Infelizmente, as inscrições abrangem apenas uma parcela do tempo em análise. Partimos do princípio de que, neste contexto civilizacional, a ausência de inscrições não significa um vazio de informação de carácter sociocultural mas, confirmando-se a inexistência como uma manifestação de índole cultural, elas podem significar ou um outro tipo de sociedade ou uma fase de desenvolvimento desta sociedade.

Como acima afirmámos, José d’Encarnação, mesmo não sendo esse o objectivo do seu estudo, dado trabalhar a uma escala diferente, proporcionou-nos uma interessante abordagem da temática sociológica à escala da cidade. Sem prejuízo do seu estudo, cujo catálogo tomaremos como base de trabalho e de cujas conclusões nos socorreremos permanentemente, retomaremos o tema para tentar responder a questões que, relacionadas com este aspecto, se projectam numa outra direcção. Pretendemos perceber qual o comportamento da informação deduzida da epigrafia relativamente à dinâmica do território, e compará–lo com o deduzido do material arqueológico e dos sítios.

De quando datam, e quem está representado nas mais antigas inscrições de Pax Iulia? Qual o tipo e função das primeiras inscrições conhecidas? Repartem-se de igual modo, em número, em tipo e em função, no núcleo urbano e no mundo rural? As categorias sociais representadas equivalem-se em ambos os espaços? São visíveis processos de mobilidade social ao longo do tempo ou há uma estagnação? Permitem-nos as inscrições deduzir comportamentos sociais? Pode estabelecer-se alguma relação entre os tipos de monumentos e os grupos sociais? Permitem as inscrições deduzir um perfil cultural distinto na cidade e no campo?

À primeira questão respondeu José d’Encarnação: cavaleiros (raros); libertos (nem sempre de fácil identificação mas constituindo 30% das ocorrências em todo o conventus); escravos (35,6% do total do conventus); imigrantes (itálicos, norte-africanos e peninsulares) e indígenas.

De entre os imigrantes ter-se-ão destacado algumas famílias, como a Iulia as quais parece terem desempenhado um papel importante na cidade.

Retivemos para esta análise inscrições de que é possível obter cronologia e/ ou identificação de alguém aí mencionado e caracterização do monumento (tipo e função), num total de 137, repartidas da seguinte forma: cidade 51; cidade ou arredores 21; espaço rural 65. O número de inscrições relativas ao espaço rural é francamente superior ao das encontradas na cidade, o que pode ser resultado da estratigrafia de ocupação continuada de Beja e do reaproveitamento de muitas delas nas construções ou, mesmo, o seu desprezo em entulhos de casas e outros edifícios. Não nos parece, portanto, que se deva atribuir significado particular a esta desproporção. Todavia, na análise comparativa ter-se-á em consideração esta desigualdade de representação.

A ordenação dos exemplares, por períodos cronológicos, por estratos populacionais, por tipo de inscrição e tipo de monumento, mantendo como referência o núcleo urbano e o espaço rural, permite sintetizar o comportamento destas variáveis no tempo e no espaço, referentes fundamentais para a pesquisa que desejamos desenvolver.

Centrando a análise nos indivíduos, pode observar-se que, no século I d. C., a quantidade de menções a cidadãos é praticamente indistinta entre os monumentos da cidade e os do campo, onde encontramos, respectivamente, 8 e 7 menções. As duas inscrições de cidadãos, provenientes da cidade ou do campo, não desvirtuam esta representatividade.

Ausentes das inscrições da cidade, os indígenas e os indígenas romanizados surgem no mundo rural em 7 inscrições. Os escravos e libertos representam, aparentemente, uma insignificante parte no universo populacional do I século d. C.: os primeiros aparecem mencionados uma vez em cada um dos espaços e mais uma vez incertamente num ou no outro espaço; os segundos identificam-se uma vez no mundo rural e quatro na cidade.

Realce-se, porém, que o conhecimento do segmento populacional de libertos deriva de duas inscrições honoríficas, uma erigida pelos amici a um augustal da colónia pacense e do município de Évora (filho de uma liberta) [IRCP, 241], outra dos libertos públicos a Décimo Júlio Saturnino [IRCP, 240] e por duas inscrições funerárias, uma de Níger, augustal da colónia [IRCP, 246] e outra, em verso [IRCP, 270], que Encarnação relacionou com gente eventualmente ligada ao teatro [ENCARNAÇÃO, 1984, 343-344]. As primeiras duas inscrições obrigam-nos a ampliar significativamente o número de indivíduos desta categoria social.

Considerando o tipo de inscrição, no século I, na cidade, salienta-se o carácter honorífico de uma parte significativa delas, 40%—seis em quinze. As restantes são funerárias.

A significativa importância das homenagens públicas nas quais se salienta a prestação dos libertos parece remeter para um momento de afirmação da cidade e para uma certa marcação de posição dos diferentes grupos sociais no interior da cidade.

A Ponte dos Frangãos, de onde provém uma inscrição imperial [IRCP, 292], era, até aqui, localizada na região de Quintos. Sabemos hoje que a dita ponte se situava muito próximo de Beja, podendo a inscrição ter sido para aí transladada desde a cidade, onde deveria ter estado colocada nalgum edifício público.

Em meio rural, o domínio pertence às inscrições funerárias, o qual só é perturbado por duas votivas. Uma a Atégina, divindade indígena, a quem dois indígenas cumpriram voto [IRCP, 287] e outra a Salus, como portadora da felicidade, [IRCP 290], que um escravo invoca em favor de Gaio Atílio Cordo, que poderia ser o proprietário da villa de Pisões, de onde a inscrição é proveniente [ENCARNAÇÃO, 1984, 797].

As quatro inscrições funerárias recolhidas no campo ou na cidade concordam com a visão inferida das restantes: duas de cidadãos, uma de escravo e uma de liberto. Esta última merece destaque particular, dado mencionar uma liberta cujo patrono seria também um liberto [IRCP, 356].

Uma síntese breve dos dados obtidos pelas inscrições, relativos à sociedade pacense do primeiro século, evidencia que, no conjunto da civitas, as referências aos cidadãos representam quase 49,9%; os indígenas e indígenas romanizados, 18,9% (circunscritas ao campo); os libertos e os escravos em conjunto constituem uma franja de 21, 6 % mas que o tipo de menção sugere ser bastante mais significativa.

No século II, o número de inscrições, relativamente ao século anterior, é tecnicamente igual na cidade mas no campo aumenta 19%. Esta percentagem mantém-se mesmo contabilizando os exemplares de proveniência incerta.

O comportamento das inscrições datadas indefinidamente do século II ou III é consonante com o das datadas do século II, daí termos optado por juntá-las e analisá-las em simultâneo.

Do século II foram datadas 49 inscrições (16 da cidade, 27 do campo e 6 do campo ou cidade) e 11 do século II/III (4 da cidade, 5 do campo e 2 do campo ou cidade). Neste conjunto, relativamente ao precedente, destacam-se de imediato mutações apreciáveis do aspecto formal dos monumentos funerários e uma enorme alteração na percentagem das categorias dos indivíduos que aí aparecem.

Situemo-nos, por ora, neste último parâmetro. Na cidade, os cidadãos quase desaparecem das inscrições, deles se tendo conhecimento apenas 3 vezes: numa inscrição com características simultaneamente votivas e funerárias, consagrada a Serápis Panteu [IRCP, 231]; num fragmento de inscrição honorífica [IRCP, 232], onde é legível o nome de um dos duúnviros que aparecem numa dedicatória a Lúcio Vero, recolhida em ambiente rural (Represas) [IRCP, 291] e numa homenagem que um liberto presta ao seu patrono, um militar, que parece ter exercido cargos da carreira equestre [IRCP, 235].

Os libertos, por sua vez, aparecem mencionados em 13 inscrições. Em quase todas elas encontramos dois indivíduos da mesma condição (o defunto e o/a dedicante). Tratando-se de inscrições funerárias, poderá dizer-se que estes números podem não representar um substancial aumento dos libertos.

Admitindo que algumas inscrições possam reportar-se a indivíduos cujas famílias estão na cidade desde o século anterior, parece-nos, ainda assim, que é inegável o aumento deste grupo social na cidade.

Por ser eventualmente proveniente da cidade ou de local próximo, poderá acrescentar-se às inscrições de libertos aquela que foi doada a Mitra por um liberto, que foi magister do sodalício dos Brácaros que, a expensas suas, fez à divindade um edifício com uma crátera [IRCP, 339; EDMONSON, 1984, 69-86].

 

Menos evidente, dado serem menos numerosos, também os escravos aumentam, respondendo por quatro menções.

Apesar de ser visível, no mundo rural, uma representação mais equilibrada dos diversos escalões sociais, os libertos são os melhor representados (9 inscrições). As inscrições de escravos colocam-se em segundo lugar, respondendo por 7 monumentos. Os cidadãos ocupam o último lugar, ainda assim, representados em 5 monumentos funerários.

A inscrição de Gaio Júlio Juliano (provavelmente um dos duúnviros da inscrição de Represas, dedicada a Lúcio Vero), encontrada na villa de Torre de Cardeira [IRCP, 305], parece indicar mais um caso em que um magistrado é enterrado na sua villa.

Relativamente ao século anterior e considerando o campo e a cidade, sublinha-se a imagem de equilíbrio que transparece da epigrafia mas, sobretudo, ressalta claro que o grupo indígena, anteriormente bem representado no campo, desaparece totalmente. Por sua vez, igualmente novo é o aparecimento de peregrinos em meio rural mesmo considerando o carácter indeciso da sua identificação.

No que respeita ao tipo de inscrição, as inscrições funerárias, na cidade e no campo, constituem a maioria. As inscrições honoríficas, relatando homenagens na cidade, são atestadas por três inscrições na cidade: duas delas não se sabendo de quem foi a iniciativa [IRCP, 230, 232] e uma feita por um liberto ao patrono, um militar que poderá ter também desempenhado algum cargo municipal [IRCP, 235].

No mundo rural atestam-se duas inscrições. Destas, estranha-se que a dedicada a Lúcio Vero, por decreto dos decuriões (e de que se encarregaram os duúnviros) [IRCP, 291], tenha sido encontrada no local de uma villa (Represas) e não na cidade, onde faria todo o sentido estivesse colocada no forum. A ambiguidade informativa, quanto ao seu local de proveniência, poderá ter resultado num equívoco quanto ao seu local de achado? Aquela com que, em Vipasca, os colonos de Augusto homenageiam Berilo, liberto de Augusto, pelos bons préstimos enquanto administrador das minas [IRCP, 121], enquadra-se num espaço particular do território de Pax Iulia e parece ser mais um elemento demonstrativo da vida e autonomia deste aglomerado urbano secundário e couto mineiro.

A diminuição deste tipo de inscrições, relativamente ao tempo precedente, parece marcar um abrandamento das práticas evergéticas na cidade.

No que respeita aos cultos, assinale-se o aparecimento das divindades orientais no quadro da actividade religiosa da civitas: Serápis, divindade egípcia, com o atributo Pantheus [IRCP, 231], e Mitra, para quem o sodalício dos Brácaros fez a expensas suas um edifício com uma crátera [IRCP, 339]. A inscrição a Ísis [IRCP. 338] não permite datação, segundo Encarnação, mas poder-se–ia admitir que datasse deste período e integrasse este movimento de cultos orientais que a cidade acolhe.

No campo, as duas referências a cultos praticados são: uma a Apolo [IRCP, 286], ilustrando um culto privado, de uma peregrina ou cidadã, à divindade, outra a Cíbele [IRCP, 289], de conteúdo manifestamente interessante, dado relatar um culto de carácter esotérico e secreto organizado, não na cidade mas nos seus arredores, no qual se associavam cidadãos e libertos, sendo, no caso presente, referidos os primeiros como sacerdotes e os segundos como iniciados.

As inscrições cuja proveniência urbana ou rural se questiona, apenas 1,2%, do total, poderiam ter integrado, sem qualquer efeito de perturbação, um ou outro grupo. Destas merece apenas destaque aquela que refere o culto de Mitra, e que, como presumimos poderá ter sido proveniente da cidade.

O século III corresponde à generalizada diminuição de inscrições. No total apenas se encontraram 17 monumentos (correspondendo 9 ao mundo rural, 5 à cidade e 3 de proveniência indeterminada).

Nos monumentos urbanos, 2 pertencem a escravos, 1 a cidadão, 1 a um indígena romanizado e 1 a um hipotético liberto.

No campo, encontramos o panorama já detectado nas inscrições do século II e II/III: 3 libertos, 2 escravos, 3 cidadãos, e 1 liberto ou cidadão, verificando-se apenas que, relativamente a esse período anterior, os cidadãos sobem percentualmente.

Tal como anteriormente, no conjunto da civitas domina o grupo das inscrições funerárias. Uma única inscrição não tem esta função. Trata-se da inscrição votiva-honorífica, proveniente da cidade, erigida por dois escravos à Juno da “nossa” Secunda [IRCP, 229].

Os monumentos de cronologia indeterminada (11 na cidade, 5 no campo e 5 de um ou outro espaço) constituem um grupo bastante interessante. As inscrições honoríficas totalizam 28,6% do total destas. Exceptuando uma, de proveniência incerta [IRCP. 341], as outras foram encontradas na cidade.

A ausência de datação não nos permite confirmar se se trata de novas inscrições ou se  podem corresponder a fragmentos de outras. Destaca-se, de entre estas, aquela onde se refere um duúnviro e perfeito dos artifíces [IRCP, 233] que, no seguimento de proposta de Galsterer [GALSTERER, 1971, 52 n.9], alguns autores têm tomado como referindo dois tipos de ordens ou assembleias de notáveis [ENCARNAÇÃO, 1984, 307, n. 6] e que, no entender de Jorge de Alarcão, se coadunaria com a indicação de uma cidade mista, fornecida por Estrabão III, 2 15.

As restantes, porque truncadas, têm interpretação complicada. Uma apresenta o cursus honorum equestre de um burguês municipal [IRCP. 234], outra é a homenagem de um escravo a um edil [IRCP. 237], outra é a homenagem a um provável flâmine, hipoteticamente pela cidade de Pax Iulia [IRCP, 238] e outra uma eventual homenagem a um magistrado municipal [IRCP, 242].

Sem proveniência certa, também, a inscrição IRCP, 341, que pode referir uma homenagem em que interveio o conselho municipal, não se distingue das da cidade. Poderá colocar-se a hipótese de ter vindo daí e de, também ela, ser fragmento de uma qualquer outra.

Uma epígrafe de leitura duvidosa, não possibilitando uma interpretação fundamentada, parece revelar o culto a Iuventus [IRCP, 230].

As restantes inscrições são funerárias e delas destaca-se uma, proveniente da cidade, por sugerir ter pertencido a uma cornija ou lintel de um edifício que, confirmando-se a sua função, deveria ser um mausoléu.

A apresentação descritiva dos dados permitiu-nos responder a algumas das questões que introduzimos. Fica claro, como era esperado, que as epígrafes tenham sido utilizadas, desde sempre, pelos distintos grupos da sociedade, porém estas não traduzem uma representação equilibrada daqueles, ao longo do tempo. A análise centrada na variação dos espaços permite vislumbrar uma tendência de evolução no mesmo sentido. Numericamente, os libertos, no século II, na cidade e no campo, têm valores distintos. No entanto, o lugar em que se posicionam, relativamente aos outros grupos representados, é exactamente o mesmo, pelo que, tendencialmente, se assiste a um mesmo processo. Parece, pois, poder deduzir-se das epígrafes que, se no século I a população rural e a urbana se podem distinguir, a partir do século II não é mais possível tal distinção, o que pode remeter-nos para uma fase de funcionamento da civitas em que os dois espaços se articulam em simbiose perfeita.

 

Se a utilização dos dados da epigrafia como índices permite aferir processos de mutação social ao longo deste período, afigura-se-nos complexa a confrontação destes mesmos dados com outros que se inferem dos restantes vestígios arqueológicos, e que podem proporcionar-nos complementar uma análise explicativa das razões da evolução do tecido social da civitas.

No que diz respeito aos cidadãos, verificamos que a maioria deles é conhecida por poucas inscrições honoríficas. Os monumentos funerários, fundamentalmente com origem no mundo rural, remetem-nos para o processo de colonização de Pax Iulia. Não se conhece nenhum monumento anterior ao século I d. C., facto que, aliás, concorda com a cronologia das villae, fornecida por outros materiais arqueológicos. A deficiente apresentação do local de achado, apenas nos  permite, no século I, identificar Coscónio com a propriedade da Fonte dos Frades [ALFENIM, 1997] e o olisiponense Marco Júlio Avito com o Monte da Chaminé (Santa Vitória) [IRCP, 296]. No século II, é provável que o proprietário da villa de Torrejão fosse um indivíduo de origem africana chamado Gaio Blossio Saturnino [IRCP, 294], o da de Torre da Cardeira, Gaio Júlio Juliano [IRCP, 305], e o da villa da Amendoeira, Décimo Júlio Saturnino [IRCP, 306].

No século III, o número de cidadãos é diminuto (como, aliás, é o das outras categorias) e, por isso, de pouco significado. Será, contudo, importante confirmar no futuro, com o aparecimento de novas inscrições, se neste período os cidadãos se dispersam por todo o território ou se o facto de aparecerem na zona de Ferreira, onde antes deles não havia conhecimento, tem algum significado particular. Os vestígios recolhidos nas villae desta região parece invalidar qualquer particularismo, pois naquelas que conhecemos, os materiais atravessam todo o período romano.

A mobilidade dos cidadãos entre o campo e a cidade confirma-se no século II, com vários indivíduos a aparecerem em inscrições na cidade e, depois, no campo.

Da fraca representatividade em monumentos epigráficos poderá deduzir-se que o número de escravos e libertos não é significativo em Pax Iulia no primeiro século da nossa era?; ou que é reflexo de uma incipiente apreensão dos cânones culturais romanos, por estes grupos da população?

Preferencialmente, como hipótese, sugerimos que a ausência destes segmentos da população, na epigrafia funerária, se explica pelo facto de estarmos ainda em fase de constituição do tecido social da civitas no qual este grupo faz a sua entrada. O facto dos libertos serem, nesta fase inicial, mais representativos em meio urbano, e de entre eles encontrarmos libertos públicos, poderá remeter-nos para um momento em que esta categoria tem natureza preferencialmente urbana, onde poderá participar activamente na instalação das estruturas de funcionamento da cidade.

É evidente que o século I é um tempo demasiado vago e simultaneamente demasiado longo para credibilizar esta hipótese, sobretudo quando não há escavações que nos tenham fornecido estratigrafias que possam servir de controlo à exacta temporalidade do processo de construção da cidade. A inscrição, datada de 3 ou 2 a. C., que assinala a construção das portas e das torres da muralha, não poderá ser interpretada como comemorativa da edificação da cidade no seu todo, dado que os trabalhos de construção dos equipamentos da cidade são muito mais vastos que aqueles que se referem na inscrição. O flagrante destaque que os libertos assumem em inscrições honoríficas e votivas afigura-se concordante com uma fase de progressivo aparecimento, integração e afirmação na civitas, onde fazendo uso desta prática, marcavam simbolicamente a sua presença e posição. A inscrição com que os amici homenageiam Lúcio Márcio Piero [IRCP, 241] pode tomar-se como um elemento sintomático da expressão social e eventual poder económico desta franja da população.

Relativamente ao grupo constituído por indígenas e indígenas romanizados, verifica-se que apenas estão representados no campo. Se convocarmos as inscrições de toda a zona de Aljustrel, na periferia espacial, na margem, ou já fora do território, encontramos registado epigraficamente o mesmo perfil de indivíduos que no mundo rural de Pax Iulia—alguns cidadãos e uma substancial população de indígenas. Poderemos, partindo desta constatação, aferir e testar, do ponto de vista cronológico, a existência de uma população indígena sobretudo dispersa pelas margens do território, salientando-se na região de Moura e Aljustrel.

Em nosso entender, a explicação para esta situação deverá poder relacionar-se com um processo de ocupação e exploração dos campos e, sobretudo, das minas, o qual se sustentaria no binómio, cidadão e população indígena; os primeiros seriam certamente colonos e os segundos, tanto poderiam constituir a mão-de-obra rural, agrícola ou mineira, eventualmente assalariada, como proprietários ou usufruidores de parcelas de terra, o que, aliás, parece poder deduzir-se de inscrições como aquela placa proveniente da Romeirinha (Serpa). A estas inscrições poderiam corresponder no campo as primeiras villae cujo tipo se assemelharia à villa I de S. Cucufate.

No seguimento do nosso raciocínio, emerge com naturalidade a presença substancial dos libertos nas inscrições do século II. Se o período anterior corresponde ao seu aparecimento em Pax Iulia e à ostentação simbólica do seu papel enquanto grupo, este período deveria corresponder a um momento de continuada fixação e à natural regeneração de gerações. Preferimos esta hipótese a uma qualquer outra que avance no sentido de localizar neste período a chegada em massa de libertos ou um acréscimo dos actos de libertação É certo que esta hipótese não exclui a simultaneidade da ocorrência de todos estes factos, mas será difícil não contextualizar o início do fenómeno anteriormente à sua detecção nas epígrafes funerárias (eventualmente no final do século I).

De concreto, o que se pode constatar, à escala do território, mas sobretudo na cidade, é a emergência dos libertos como um grupo numericamente bem representado, o que, por impossibilidade de averiguar o seu real papel e o grau da sua influência na vida da cidade, não nos autoriza qualquer avaliação de natureza qualitativa. Na cidade dedicar-se-iam, eventualmente, a actividades comerciais e industriais, às quais estão tradicionalmente associados, contribuindo activa e decisivamente para que esta assumisse características distintas daquelas que a sua implantação interior, em meio rural, naturalmente lhes destinaria. O perfil mais condizente com uma cidade de litoral que de interior, que Manuela Alves Dias lhe atribuiu, só, a partir desta altura, poderia ser afirmado.

Os libertos que encontramos em meio rural constituiriam a mão-de-obra necessária nas exploração rurais que, desde o final do século I ou início do século II, iniciam um período de crescimento, motivado pelo acréscimo dos rendimentos, concretizada a fase de instalação e progressiva optimização das culturas. Esse crescimento traduz-se por investimentos, de que podem tomar-se como exemplo o alargamento dos edifícios e celeiros da villa II de S. Cucufate, datada da primeira metade do século II, e a reforma da villa do Monte da Cegonha, datada do final do século I ou início do século II. A explicação de natureza económica para este fenómeno de natureza social seria mais abrangente, podendo estender-se também aos escravos, que também aumentam neste período.

Esta relação entre crescimento da exploração agrícola e estratos sociais servis parece colher outro argumento no facto de encontrarmos uma mobilidade de cidadãos ilustrada pelas inscrições que no-los indicam a exerceram funções importantes no governo da cidade e, depois, a serem enterrados nas suas villae.

O desaparecimento de indígenas das inscrições não se explica facilmente. Hipoteticamente, este desaparecimento deve derivar de um facto cultural relacionado com o apagamento dessa onomástica face à assimilação de novas formas de identificação. Outras hipóteses, naturalmente, devem poder colocar-se, e os especialistas em epigrafia estarão certamente mais habilitados que nós para o fazer.

No que concerne à tipologia dos monumentos, é impossível estabelecer qualquer relação entre monumento e categoria social. O único monumento que parece ter uma relação directa com um sector da população é a estela. No século I, as estelas são o monumento de indígenas e indígenas romanizados, com uma única excepção, a do escravo Ruga (cognome latino) [IRCP, 359] e são exclusivas do mundo rural. Nos séculos seguintes, o seu aparecimento é residual e sempre em contexto extra-urbano.

Sem outros exemplares, poderíamos ainda acrescentar que existem sobretudo no século I e que, da mesma maneira que não sobrevivem identificações indígenas, também estes monumentos, em sincronia, desaparecem.

José d’Encarnação havia já afirmado o carácter rural deste tipo de monumento [ENCARNAÇÃO, 1997, 147]. Atendendo apenas aos exemplares em análise, pode complementar-se esse carácter com outro de natureza cultural. As estelas são um monumento rural e, no território de Pax Iulia, relacionadas com o estrato indígena da população.

A placa e a ara são os monumentos mais vulgares nas inscrições funerárias do primeiro século. No campo, a placa é francamente maioritária, seguida da estela e da ara. A cupa está presente com único exemplar, originário da cidade.

No século II, a cupa aparece como o monumento funerário por excelência. Na cidade responde por 53,8% do conjunto dos monumentos funerários (aras, 23,1% e uma árula), e no campo por 31,6% (a ara representa 42,1%, ou 52,6%  caso se incluam duas duvidosas).

O seu domínio continua no século III, atingindo na cidade 75% dos monumentos  funerários (os outros 25% são aras) e no campo 66,6% (os restantes 33,4% são aras).

O aparecimento e divulgação deste tipo de monumento mostra bem a disponibilidade da sociedade pacense em acolher modelos culturais novos. O facto de se tratar de um monumento que teria paralelo em contentores utilizados numa das suas produções importantes, o vinho, não deixará de ter contribuído para a sua aceitação. A sua vulgarização deverá poder relacionar-se com a produção estandardizada em que se terão especializado oficina(s) instalada(s) na cidade.

É evidente o paralelismo cronológico entre a intensa divulgação da cupa e o aparecimento dos libertos. Não cremos que se possa estabelecer alguma de causa/efeito entre os dois acontecimentos, admitindo-se que cada um deles tenha a sua própria explicação; no entanto, apesar de os libertos não se sepultarem exclusivamente sob cupae sobretudo no campo, o facto de só no século III encontrarmos um cidadão inscrito numa cupa leva-nos a sugerir que, em Pax Iulia , o fundo cultural em que se movimentam os libertos é aquele que, numa primeira fase, está mais receptivo à introdução do monumento. Esta ausência de epitáfios de cidadãos em cupae deixa-nos aberta a possibilidade de especular que os cidadãos relacionavam este monumento com as classes servis, de quem eles gostavam de se distinguir.

A epigrafia de Pax Iulia não nos permite, como era esperado, reconstituir a sociedade pacense, nem era, como afirmámos no início, o nosso propósito, mas as informações diversificadas que concede representam uma mais-valia importante para a compreensão dos ritmos de evolução da civitas, estabelecida a comparação entre os dados relativos a estes com os restantes dados da arqueologia.

Se o século I, período que terá correspondido à ocupação do campo, como parecem testemunhar outros vestígios arqueológicos, nomeadamente as cerâmicas, se pode caracterizar pela distinção de gentes nos dois espaços constituintes da civitas, insinuando uma dualidade nas formas da vida social e cultural, o século II surge como o período em que a civitas se apetrecha de um corpo social similar indistinto em todo o seu espaço. A articulação deste corpo social com os sectores da vida económica leva-nos a considerar que o binómio espacial funciona de forma interpenetrante no sentido da unidade das partes, o que corresponde à realização plena da civitas nas suas várias dimensões.

A massa social que encontramos nas epígrafes revela-nos um dinamismo que naturalmente se reflectiu no cenário físico em que esta se movimenta. No núcleo urbano, cujos restos materiais são mais difusos, física e cronologicamente, a percepção dos elos de convergência ou afastamento que determinam as relações que entre eles se estabelecem são mais ténues que no espaço rural. Aqui, um maior conhecimento da dinâmica das formas e dos ritmos de ocupação permite estabelecer a germinação e progresso das influências entre o material e o humano e situá-las simultaneamente em plano vertical e horizontal.

Da epigrafia, parece poder deduzir-se que a forma equilibrada e coerente como a civitas constituíu o seu corpo social lhe terá proporcionado um desenvolvimento baseado no seu potencial agrícola mas também em actividades de natureza comercial e industrial, fortemente beneficiárias da sua posição geográfica estratégica no contexto regional.

Foram estas as gentes que encontrámos a formar o tecido social da civitas. Este corpo social, repartido pelo núcleo urbano e pelo campo, traduziu o seu esforço em múltiplas realizações, que hoje tentamos recuperar, a partir dos vestígios que se vão revelando.

Se no núcleo urbano nos deparamos com um conhecimento muito difuso e complexo, no espaço rural, os vestígios revelados são mais abundantes e o seu conhecimento, mais satisfatório.

 

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