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Projeto Arqueologia das Cidades de Beja: Uma cidade contada em cacos

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Saberá o bejense do século XXI, que traz às costas o pesado fardo do interior e todas as suas inerências, que durante séculos, entre o período fenício e as Descobertas, aqui cresceu e se consolidou um centro cosmopolita, com fortes ligações ao Mediterrâneo e às cidades do sudoeste peninsular, como Huelva, Cádis ou Miróbriga? A resposta dorme debaixo das calçadas da cidade, “um património riquíssimo” que a arqueóloga Conceição Lopes quer desvendar aos seus herdeiros, se possível quebrando-lhes o mau hábito de se esquecer do passado e não se orgulhar dele. As escavações ainda decorrem no núcleo arqueológico da praça da República, revelando todos os dias novos cacos, novas histórias.

Captura de ecrã 2014-11-27, às 1.53.00 PM

Já diz o senso comum que conhecer o passado é a melhor forma de compreender o presente e projetar o futuro. Uma receita que é aconselhada por terapeutas para resolver perturbações comportamentais individuais e que, talvez, possa também ser aplicada às comunidades que lidam com problemas de autoestima. Conceição Lopes não é psicóloga, nem sequer é natural de Beja, mas já leva “praticamente mais de metade” do seu percurso a trabalhar no Alentejo, remexendo com especial interesse os vestígios da velha Pax Julia, grande colónia romana do sudoeste peninsular, que lhe forneceu matéria para uma tese de doutoramento. Sabe, por isso, de tanto tropeçar em arcos, muros, colunas, pratos, tachos, panelas e talhas que a cidade “é um património em subsolo, maravilhoso, riquíssimo”. E também que, paradoxalmente, quem diariamente caminha sobre as calçadas que escondem estes tesouros não quer saber de tal coisa. Não pergunta, não indaga, não fala sobre o assunto e muito menos se orgulha. “É a minha grande incógnita”, desabafa, enquanto aponta para o muro lateral leste do majestoso templo romano descoberto em 2008, em plena praça da República, tido como “maior e mais interessante que o de Évora”, que é afinal o principal ponto de interesse turístico da vizinha declarada Património da Humanidade. Em cima, descreve, “estava o café “Pelourinho’ que funcionou aqui até há muito pouco tempo; e a tipografia do ‘Diário do Alentejo’, mais recente, que também funcionava aqui, todo o seu muro estava assente em cima do tanque romano. Mas jamais alguém falou no templo, a não ser o Abel Viana [arqueólogo, em 1939], e ele está aqui à superfície”.

A arqueóloga, responsável pelo Centro de Estudos Arqueológicos das universidades de Coimbra e Porto, coordena as escavações do projeto Arqueologia das Cidades de Beja e com ele pretende refazer a história do burgo desde o século VII a.C., a data dos vestígios mais antigos que encontrou na praça da República, até aos dias de hoje. A Câmara Municipal de Beja vai em breve construir, no quarteirão fronteiro aos paços do concelho, um edifício “sustentável” para albergar todos os seus serviços técnicos e é nesse sentido que no respetivo logradouro nascerá um “museu vivo”, onde se inclui parte do referido templo romano, além de outros achados saídos deste núcleo arqueológico.

Intimamente, Conceição Lopes espera também conseguir com este trabalho, “que envolve todos, a câmara, a universidade, a população, levantar a autoestima dos bejenses relativamente ao património”. E avança com um objetivo ainda mais ambicioso: “Vamos colocar este património no património do País, porque ele é muito importante. É um trabalho que temos que fazer, mas com a comunidade toda”.


Beja romana tem um perfil de cidade litoral 
Saberá o bejense do século XXI, que traz às costas o pesado fardo do interior e todas as suas inerências, que durante séculos, entre o período fenício e as Descobertas, aqui cresceu e se consolidou um centro cosmopolita, com fortes ligações ao Mediterrâneo e às cidades do sudoeste peninsular, como Huelva, Cádis ou Miróbriga? Talvez não, mas certamente não lhe faria mossa dar uma vista de olhos aos materiais encontrados, importados de territórios como os atuais Chipre, Líbano, Líbia ou Tunísia, e conhecer o período em que Beja parece ter sido um importante núcleo difusor das mercadorias que chegavam ao porto de Mértola, dada a sua localização estratégica entre três importantes linhas de água: o Guadiana, o Sado e o Guadalquivir, em Espanha.

Além dos objetos do quotidiano, há a epigrafia a atestá-lo. As inscrições estudadas pelo professor José d’Encarnação, da Universidade de Coimbra, e levadas em conta pela arqueóloga nas suas conjeturas, indicam que “o perfil social de Beja na época romana é um perfil igualzinho ao de Ossónoba, Faro, ao de Lisboa ou ao de outra cidade qualquer do litoral”. É fundamentalmente uma epigrafia de libertos – antigos escravos, a quem o patrono ou o próprio imperador terão concedido alforria – e essa, continua a investigadora, “era a população típica de uma cidade com um comércio e uma indústria bastante desenvolvidos, muito diferente daquela que encontramos nas cidades retraídas do interior, como Idanha ou até mesmo Évora”.

Perguntará o mesmo bejense curioso, seguindo um raciocínio lógico, se depois deste período áureo o que se segue é a decadência? Conceição Lopes responde que não. Chegada ao século XVI e ao tempo de D. Manuel, coincidentemente duque de Beja, a cidade passa a acompanhar a viragem atlântica do próprio reino e “começa a ficar um pouco à margem de um outro comércio, ganhando um caráter mais regional e agrícola, e menos cosmopolita”. O que, salvaguarda a arqueóloga, não é sinónimo de “regressão ou decadência – o que acontece é que os circuitos se alteram e a cidade muda de perfil”. Évora, mais próxima dessa rota, acabará também por tirar partido de uma “preferência da coroa pela sua aristocracia”, já posterior a D. Manuel I, e que é patente, por exemplo, na edificação da universidade, a segunda a ser fundada em Portugal.

O que diz o lixo Mas os sinais de riqueza continuam por lá, entre entulhos e estruturas que se foram reciclando para dar lugar a novas edificações, num contínuo reaproveitamento até aos dias de hoje. “Ainda hoje estivemos a escavar milhares de ostras, que devem ser do século XVII, ou seja, a cidade não deixa de ter dinheiro, de ser rica, de ser uma cidade importante”, esclarece Conceição Lopes, avançando no tempo, até ao século XIX, para confirmar a sua suposição. É um “grande século” para Beja, diz, e não admira, por isso, que o próprio visconde da Ribeira Brava tenha sido aqui governador civil. O “boom de materiais” de altíssima qualidade contempla faianças, porcelanas, vidros, e evidencia um importante poder de compra, muito provavelmente por parte das “elites rurais que estavam aqui estacionadas, já que as terras, os famosos barros de Beja, sempre foram um atrativo”.

Já no século XX, o que dizem os utensílios do quotidiano é o que sabemos da história contemporânea e dos testemunhos ainda vivos sobre a sociedade do Estado Novo. A cidade “ruralizou-se e empobreceu”, desvendando dois mundos bem distintos. O de uma certa burguesia endinheirada e o da classe pobre, que é traída pelos seus despojos. “Quando só se partem pratos para a sopa, e não se encontram ossos de cabrito ou de borrego, por exemplo, temos que pensar por que é que isso acontece”, confessa a investigadora. Ainda assim, a cidade não perde relevo do ponto de vista cultural, continuando na senda de uma “tradição esclarecida que está na sombra”, e com a qual a própria arqueóloga, beirã, se deparou quando cá chegou, nos anos 80: “Conheci aqui pessoas que só conhecia dos livros e essa gente não chegou naquela altura, sempre andou por aqui”.

Os cacos falam pelos que não têm registo nos documentos que fazem a História – porque não fizeram doações, porque ninguém os nomeou para cargos, porque não sabiam alinhar um par de letras para escrever uma carta. Na arqueologia, conclui Conceição Lopes citando o colega Cláudio Torres, “fazemos a história dos que não aparecem na História, estes que atiram coisas para o lixo, de que só conhecemos os pratos de sopa”.

Miscigenação norte/sul

Há indícios, sobretudo nas escavações arqueológicas que foram efetuadas no castelo há uns anos, de que Beja terá sido praticamente destruída no período da reconquista cristã e que terá demorado a recompor-se desse revés. “Há uma fonte que nos diz que, no século XI, a cidade é destruída duas vezes. Pelas lutas entre cristãos e muçulmanos e também devido aos conflitos internos entre as várias fações muçulmanas que aqui dentro disputavam o poder”, refere Conceição Lopes. Prova desse ressurgir tardio é a reforma urbanística feita ao tempo de D. Manuel I, já no século XVI, com casas feitas literalmente “em cima de ruínas muçulmanas”. A arqueóloga sublinha também a ausência de elementos para compreender o que se terá passado em Beja entre o final do século XII e meados do século XV. Suspeita-se, concretiza, que terá sido “um momento em que as comunidades se misturam, partilham coisas; um momento de grande povoamento com gente que vem do norte. É que os muçulmanos não morreram todos, continuaram cá e as pessoas misturaram-se. Não se mataram todos uns aos outros, a maioria das vezes casaram-se ou amigaram-se, fizeram filhos”.

 

(Retirado do Jornal online “Diário do Alentejo”, do dia 25 de Maio de 2011)

 

 

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