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No rasto dos ceitis de Beja

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Terá Beja cunhado moeda própria, com autorização de D. João III? E quem seria Ruy Lopes, o homem que liderou o projeto como forma de custear a exploração de umas minas de cobre e azougue? E onde seriam essas jazidas, de que hoje não restam memórias? Novas interrogações se levantam das calçadas do centro histórico e andam a ocupar a equipa de investigadores do projeto Arqueologia das Cidades de Beja, liderado por Conceição Lopes. Depois do templo romano, e por causa dele, foram descobertos, justamente na rua da Moeda, vestígios da existência de uma casa da moeda, um achado com características únicas. Não só pela boa conservação do que foi encontrado, mas sobretudo pelo insólito de uma produção de moeda atribuída a um privado.  

Texto Carla Ferreira Fotos José Ferrolho

Antigo centro cosmopolita, com fortes ligações ao Mediterrâneo e às mais importantes cidades do sudoeste peninsular, Beja, ou melhor, o que nela ainda se esconde sob as calçadas, não para de surpreender-nos com novos dados.
Depois do majestoso templo romano do século I dC descoberto em 2008, a poucos metros da praça da República, e na sequência das respetivas escavações para identificação do espaço envolvente, foram trazidos à luz do dia vestígios surpreendentemente bem conservados do que teria sido uma casa da moeda no século XVI. Uma edificação que muitos duvidavam que alguma vez tivesse existido, dada a escassez de informação sobre a sua localização exata na cidade.
É verdade que os achados agora validados se localizam na rua da Moeda, mais exatamente no que hoje resta do edifício onde funcionavam os serviços técnicos da câmara municipal e junto ao logradouro interior onde foi identificado o primeiro templo romano de Beja, do século I aC. Mas, alerta Conceição Lopes, diretora científica do projeto Arqueologia das Cidades de Beja, tal facto, só por si, não constituía garantia de nada: “Em Coimbra, por exemplo, também temos uma rua da Moeda e, no entanto, não se regista lá nenhuma casa da moeda. Até por uma razão. Quando deixavam de funcionar, as casas da moeda tinham que ser completamente desmanteladas, para que não houvesse lugar a falsificações. Há muito poucas escavadas e publicadas“.
O certo é que, em agosto passado, começaram a ser visíveis os primeiros indícios dessa estrutura. “Na escavação do lado Oeste do segundo templo romano, começámos a encontrar vestígios de cisalhas, cadinhos, escórias, ou seja, despojos relacionados com a produção de moeda”, lembra a investigadora do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto. Hoje, passados já nove meses, a arqueóloga sente-se segura para afirmar, sem hesitações, que estamos perante “os vestígios, dentro deste género, mais completos encontrados em Portugal”.
Na prática, o que está à vista é parte do pavimento da casa do século XVI, um pouco do terraço ou pátio externo pertencente à edificação e numerosos materiais: moedas por cunhar, moedas cunhadas em parte, cadinhos, restos da fundição, o local onde se encontrava o martelo para bater as moedas e ainda algumas talhas, possivelmente usadas para guardar mantimentos. Tudo isto, detalha a arqueóloga, “construído sobre casas anteriores que deverão datar, ainda cem certezas, dos séculos XII ou XIII”.
A referida casa era conhecida através de documentação sobre o processo de concessão, aparentemente insólito, que terá estado na sua origem. Consta que, em diploma assinado em Évora em setembro de 1524, D. João III terá concedido licença a alguém de nome Ruy Lopes, administrador na respetiva corte (vedor), para a construção de uma casa da moeda em Beja, cujo intuito seria fazer face às despesas com a exploração de uma mina de cobre e azougue (mercúrio).
Um documento arquivado na Torre do Tombo, em Lisboa, confirma a licença a Ruy Lopes para “descobrir minas de azougue e cobre na cidade de Beja e seu termo, e, como a exploração destas minas lhe acarretaria grande despesa, el-rei lhe concedeu que ele, do cobre que tivesse, pudesse mandar lavrar moeda de ceitis em uma casa que mandaria fazer de muros adentro daquela cidade”.

Um achado com “carácter inédito” Além da boa conservação dos vestígios, o que também confere um “carácter inédito” ao achado arqueológico, esclarece Conceição Lopes, é o facto de estarmos perante uma casa da moeda particular. Porque “quando falamos das casas da moeda de Lisboa e do Porto”, adianta, “estamos a falar de casas reais, do Estado. Aqui trata-se de um privado, que tem licença do rei para cunhar moeda, de modo a pagar um empreendimento, que é a exploração das minas de cobre e azougue”.
De Ruy Lopes, para já, pouco se sabe, além de que terá sido o primeiro provedor da Misericórdia, fundada no final do século XV, e que também teria estado ligado à fundação do Convento de Santa Clara. “Seria quase de certeza uma pessoa de Beja, embora vivesse na corte” e, ao que parece, desvenda Conceição Lopes, nunca terá usufruído diretamente da concessão, deixando tudo em mãos de “um tal João Samurano, que nós não sabemos se é o Sembrano [nome de uma rua em Beja]”.
Muito do trabalho que agora se segue passa, por um lado, por investigar a documentação histórica disponível, nomeadamente com o apoio do Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa, no que respeita à figura de Ruy Lopes e ao seu projeto de uma casa da moeda em Beja. “A doutora Margarida Paes Leme [responsável pelo arquivo] está a ajudar-nos nessa investigação e, mais tarde ou mais cedo, acho que vamos ter novidades a esse respeito”, acredita a arqueóloga, congratulando-se igualmente com a parceria estabelecida com o laboratório Hércules, da Universidade de Évora, a quem caberá a análise, quer dos materiais orgânicos encontrados no interior das talhas, quer dos metais encontrados e até “das poeiras que ficaram depois da cunhagem”, o que poderá lançar também pistas sobre o paradeiro das tais minas de cobre e azougue de que hoje não se guardam memórias.
Dada a raridade do achado, a Casa da Moeda de Beja já suscitou o interesse de investigadores espanhóis, arqueólogos que têm trabalhado sobre a temática em prospeções na Oficina Monetária de Valência. Um contacto que já deu frutos, permitindo que os cadinhos saídos de Beja e os restos de metal aí encontrados possam vir a ser estudados no âmbito de um projeto europeu, liderado pelo King’s College.

Escavações param, mas câmara garante “continuidade” do projeto Com algumas parcerias no terreno, o estudo dos materiais vai prosseguir. Mas não as escavações na rua da Moeda, que deverão terminar hoje mesmo ou nos próximos dias. O financiamento dos trabalhos provinha de um contrato de parceria com a Câmara de Beja, por via de um projeto no âmbito do QREN, cujas verbas já se esgotaram.
“Esse financiamento implicava que tivéssemos trabalhado um ano e meio. Entretanto, já cá estamos há mais de dois anos, estendemos bastante o dinheiro e agora não temos mais hipóteses. Infelizmente não vamos conseguir escavar tudo”, lamenta Conceição Lopes, deixando claro que não desistirá de “ir à procura de financiamento”. Não pela necessidade de mais dados científicos, mas tendo em conta “a importância destes vestígios e o estado de conservação em que se encontram”. O que justificaria, no entender da arqueóloga, toda uma estratégia comum “para a promoção da própria cidade”, que passaria pela recuperação da sua antiga imagem. A de uma Beja que chegou a ser “das mais importantes cidades do sudoeste peninsular na época romana”.
Da parte da Câmara de Beja, há a garantia da “continuidade dos trabalhos”. Terminada a verba deste projeto, virão “outras candidaturas, outros projetos”, assegura Jorge Pulido Valente, presidente da autarquia, convicto de que o projeto Arqueologia das Cidades de Beja “é para continuar, não é para ser abandonado”.
Quanto ao futuro Centro de Arqueologia e Artes de Beja, que vai nascer no edifício onde funcionavam os serviços técnicos da autarquia e onde foi identificado o templo romano de Beja, ele terá duas vertentes, como o próprio nome sugere. A arqueologia ocupará o piso térreo, entre o interior e o logradouro, contemplando uma área “devidamente musealizada”, onde se fará a retrospetiva das várias cidades de Beja (romana, muçulmana, medieval e moderna), e uma outra dedicada à “arqueologia experimental”. O que significa, descreve o autarca, que mesmo depois de o edifício estar terminado “continuarão a realizar-se escavações e reconstruções de aspetos ligados à arqueologia do sítio”.
O piso superior, por seu turno, servirá para a “relocalização” do Museu Jorge Vieira/Casa das Artes”, incluindo “reservas, centro de documentação e serviços de apoio diversos”. No seu conjunto, resume Pulido Valente, o Centro de Arqueologia e Artes de Beja passará a ser “o centro nevrálgico e a porta de  entrada das visitas histórico-culturais na cidade de Beja”.  “É aqui que as pessoas começarão o circuito de visita, é aqui que receberão as informações preparatórias e é aqui também que vai estar o cérebro da rede municipal de museus e sítios arqueológicos”, descreve o responsável, adiantando que se prevê para junho a apresentação da respetiva candidatura a fundos comunitários e que há, por parte do executivo, a intenção de “arrancar com as obras antes do final do ano”.

 

(Retirado de jornal online “Diário do Alentejo”)

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