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Incêndio abriu caminho a valiosas descobertas arqueológicas em Beja (Ciência Hoje)

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Um «imponente» templo romano entre os edifícios escavados

Foi um incêndio, em Outubro do ano passado, que abriu as portas às escavações que estão a ser realizadas na Rua da Moeda, centro de Beja e da antiga Pax Julia. Como era esperado, desde que, nos anos 1940, Abel Viana investigou o centro da cidade, as escavações vieram pôr a descoberto achados que “podem contar a história da cidade desde o Século VI a.C. até ao século XXI”. Entre os quais, o templo romano do século I d.C. que já fora identificado há 70 anos.

“O que estamos a escavar em Beja é o fórum da cidade romana”, explica ao Ciência Hoje Conceição Lopes.

A arqueóloga e coordenadora do grupo de trabalho de Pax Julia insiste que a praça principal da cidade romana, o fórum, teve desde o Século VII a.C. um “desenvolvimento notável, pelo que estamos a encontrar edifícios que marcam todos estes períodos na evolução da cidade”, sendo “o mais significativo de todos e o que está muito bem conservado, pelo menos até ao momento, é o templo I, o templo da cidade”. Era “o templo ao imperador, que estava no centro dessa praça central, do fórum, e é símbolo do poder, da justiça, da administração, do governo, etc.”

Com o sinistro, ocorreu a demolição do edifício do departamento técnico da Câmara e a queda de um muro da antiga tipografia do Diário do Alentejo que permitiram estender as escavações ao longo de um núcleo entre a Praça da República e as ruas Abel Viana, da Moeda e dos Escudeiros. As três campanhas de escavação deste ano permitiram “perceber melhor” a “imponência” do templo romano.

O templo foi identificado há 70 anos por Abel Viana, antes da construção do reservatório de água da cidade. Com o início dos trabalhos do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto, em 1997, após a assinatura de um protocolo com a autarquia local, começaram as escavações que foram-se deslocando desde a Praça da República até à Rua da Moeda.

O incêndio, a derrocada e posterior demolição do edifício dos Serviços Técnicos da Câmara Municipal de Beja, situados nessa rua, “colocaram a nu vestígios do que pode ser um grande e importante Templo Romano”, conforme escreve o site da autarquia.

O templo

O edifício “imponente” conta com 30 metros de comprimento e 19,40 metros de largura e é rodeado por um tanque, com 4,5 metros de largura. Uma especificidade que Conceição Lopes sublinha pois esse tanque, pelos modelos conhecidos, “não era suposto existir”. “Nem pelos modelos que nos são transmitidos, nem por Vitrúvio, nem pelos templos que conhecemos… não era suposto que os templos tivessem à volta um tanque de água – esses eram incluídos na praça, como o de Conimbriga ou o de Mérida”.

Contudo, “há templos que têm um tanque à volta: Desde logo o de Évora, o de Ecija e o de Beja, que tem um tanque bastante grande a toda a volta”. Apesar de sublinhar a especificidade, diferente dos modelos de arquitectura de templos conhecidos e referido em três templos na Península Ibérica, prefere não especular. “É relevante e é muito interessante, mas qualquer relação podia ser pura especulação”.

O tamanho do templo não merece grande relevância por parte da arqueóloga. “É maior porque a cidade tinha mais importância” do que as cidades à sua volta, refere, em conversa telefónica com o Ciência Hoje. Maior do que o de Évora, por exemplo. O Templo de Diana não se pode comparar com o de Pax Julia, este “não tem, de modo algum, o mesmo estado de conservação, porque não tem as colunas”, embora tenha “tudo o resto”.

“Em termos de monumentalidade está noutro estado. Escavamos só a três metros e meio, mas sabemos pelas escavações de Abel Viana que o edifício vai a seis metros e meio. Não tem as colunas, que andam dispersas ali pela cidade – e podemos sem dúvida referenciar algumas, podemos saber quais são e onde pertenciam”. Tirando as colunas “é igual ao de Évora”, mas maior.

Outros edifícios

O templo não é da primeira fase de instalação dos romanos, “desse tempo temos outro edifício, mas é de uma fase de remodelação da própria cidade”, contou ao Ciência Hoje a arqueóloga. “Temos edifícios de desde a Idade do Ferro, muito bem conservados, inclusivamente um da Idade do Ferro, muito bem conservado, absolutamente extraordinário. Não está totalmente escavado porque uma boa parte está sob estes edifícios romanos, mas é um edifício extraordinário”, reitera.

Um outro, mais recente, datará do final do século I a.C. e cujas escavações vão continuar já atingiu 15 metros de cumprimento e quatro metros de altura. O terceiro, e mais recente, será o templo, “de meados do século I d.C., algures entre o imperador Augusto e o imperador Cláudio”.

O tamanho do templo está relacionado com a importância da cidade. Embora Évora fizesse parte da rede de cidades romanas, ou seja, “tinha importância”, “Beja, Pax Julia, tem um estatuto particular: é uma colónia, desde logo, e depois é a capital do convento [‘conventus pacencis’]. Administrava um território que ia do Tejo ao Atlântico. Todas as cidades como Évora e as outras, do ponto de vista jurídico estavam dependentes e sob a alçada de Pax Julia”, explica.

Beja tinha ainda uma particularidade de entre as cidades do interior, tinha porto: “Mértola é o porto de Beja”.

Criar uma mais-valia económica para a cidade

À agência Lusa, o presidente da autarquia afirmou que o objectivo é expor o património para “ser usado e visitado” pelos habitantes e turistas e, no futuro, ser “uma mais-valia económica para a cidade”, disse Francisco Santos.

Nas anteriores campanhas, já tinham sido descobertas várias estruturas de períodos posteriores à época romana, como “belíssimos” edifícios dos séculos XVI e XVII, como “vestígios da antiga cadeia de Filipe III e de algumas casas do tempo de D. Manuel”.

Em termos científicos, “o mais interessante” destas descobertas “é perceber que Beja teve uma dinâmica muito interessante ao longo dos tempos” e que “soube reciclar e usar muito bem os edifícios que tem”, frisou a arqueóloga.

Os arqueólogos vão continuar em Setembro o seu trabalho, enquanto a autarquia adquire para demolição o edifício da antiga tipografia que está instalado “em cima de grande parte” e “a mais interessante” do templo.

Curioso como um incêndio que destruiu documentos que fazem parte da história recente da cidade acabou por permitir revelar uma parte literalmente escondida dessa história.

Por Filinto Melo 

(Retirado do Jornal “Ciência Hoje”, do dia 04 de Agosto de 2009)

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