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Escavações levam à descoberta de vestígios da Casa da Moeda de Beja

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vista geral da escavação na rua da moeda

 

Junto às ruínas do Fórum romano apareceram quilos de moedas em cobre, bem como a fundição e a oficina onde eram cunhadas

No centro histórico de Beja, há uma Rua da Moeda, mas desconhece-se quando e porquê se incluiu este nome na toponímia da cidade. Apenas se tinha como hipótese o rei D. Manuel, natural de Beja, e onde foi duque, ter ali mandado cunhar ceitis (moedas de cobre). Mas como a informação sobre a sua localização sempre fora escassa e rodeada de especulação, sucessivas gerações de numismáticos sempre duvidaram da existência de uma fundição e oficina para cunhar moedas na cidade alentejana.

A prova factual mais evidente que poderá comprovar a sua localização surgiu recentemente, no decorrer dos trabalhos de escavação no interior do edifício onde estava sedeado o departamento técnico da Câmara de Beja, quase em frente dos Paços do Concelho. A arqueóloga Conceição Lopes, que lidera uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra, no acompanhamento das obras de construção de um edifício sustentável, propriedade da autarquia, confirmou ao PÚBLICO o aparecimento de “quilos e quilos” de moedas de cobre, a respectiva fundição e a oficina onde eram cunhadas.

A investigadora diz ser “prematuro” dizer-se, em definitivo, que se trata da Casa da Moeda de Beja, mas não tem dúvidas de que se está “perante uma descoberta fabulosa”. Conceição Lopes já efectuou consultas e pesquisas na Universidade de Coimbra, na Torre do Tombo e no Arquivo Distrital de Beja, para assim poder consolidar a descoberta feita.

De entre as referências à existência de uma Casa da Moeda em Beja, um documento depositado na biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia expressa a concessão feita pelo rei D. João III ao vedor da casa real: “A quantos esta minha carta virem faço saber que Ruy Lopes, do meu conselho e vedor da minha casa, me disse que eu lhe tinha dado licença para descobrir em termo de minha cidade de Beja uma mina de azougue e cobre, e por quanto no descobrimento da dita mina e tirar dos metais dela havia de fazer muita custa e despesa, me pedia que lhe desse licença que do dito cobre pudesse mandar laurar (cunhar) moeda de ceitis na dita cidade, numa casa que para isso construíra e fará à sua custa e despesa (…)”.

Conceição Lopes espera poder vir a ter condições para prosseguir com os trabalhos de investigação para definir com mais rigor o perfil e a dimensão do que admite possa ser a Casa da Moeda de Beja. A arqueóloga diz estar preocupada com as consequências da anulação da empreitada de construção do edifício sustentável, nas escavações que estavam a decorrer no local, e que foram interrompidas há mais de três meses por falta de pagamento aos dois arqueólogos que ali efectuavam trabalho de investigação.

O presidente da Câmara Municipal de Beja, Jorge Pulido Valente, garantiu que os trabalhos de escavação “continuam a decorrer”, mas adianta que para o seu prosseguimento se terá “ainda de arranjar financiamento”. O autarca socialista justifica a anulação da empreitada que ali estava a decorrer e que estava orçada em 3,230 milhões de euros, com a “incapacidade” revelada pelo empreiteiro para executar a obra, “desde o seu início”.

Por seu lado, o construtor alegou numa exposição que fez para o relatório elaborado pela equipa de fiscalização da obra que os atrasos verificados devem ser imputados ao município por “não ter entregue os elementos do projecto imprescindíveis à execução da obra”. E adianta que também se verificou o “incumprimento das obrigações contratuais perante o empreiteiro, não pagando nas datas de vencimento, nem posteriormente, os trabalhos executados e aceites”.

Jorge Pulido Valente refuta estas acusações, frisando que o empreiteiro chegou a abandonar a obra, facto que contribuiu para a “rescisão definitiva” do contrato. O resultado deste contencioso “tem um impacto directo” no prosseguimento das investigações arqueológicas, explica Conceição Lopes, acrescentando que, no momento em que pararam os trabalhos, se estava “precisamente a fazer o levantamento dos materiais descobertos” que a arqueóloga associou à Casa da Moeda.

Para além desta descoberta, o local é rico em testemunhos do período pré-romano, romano, muçulmano, medieval e moderno, o que leva Conceição Lopes a concluir que o local onde estão a decorrer as escavações “é onde a cidade se encontra com a sua construção”. Jorge Pulido Valente anunciou, na última reunião de câmara, que o projecto do edifício sustentável vai ser “profundamente reformulado” por razões de natureza económica e também devido à descoberta de “importantes vestígios arqueológicos”.

Os eleitos da CDU contestaram esta opção, alegando que era possível manter o actual projecto fazendo uma nova candidatura aos fundos comunitários.

 

(Retirado do Jornal online “Público”, do dia 09 de Março de 2012)

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