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Achados em Beja revelam parceria público-privada do séc. XVI

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O subsolo do centro histórico de Beja continua a revelar-se uma caixa de surpresas no que diz respeito aos valores arqueológicos que preserva.

Qualquer movimento de terras coloca a descoberto novos dados sobre o passado histórico da cidade, que entre o século I e II depois de Cristo foi capital do Conventus Pacensis (circunscrição administrativa com sede na actual Beja), a partir do qual era administrada uma das regiões que constituíam a Lusitânia.
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A descrição científica desse passado conheceu na última década importantes contributos, na sequência dos trabalhos coordenados por Conceição Lopes, do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto. Esses trabalhos conduziram à localização em 2012, ao fim de mais de 400 anos de tentativas, do fórum romano de Beja.

Foi quando procedia à identificação do espaço envolvente do templo romano, para aprofundar a análise interpretativa, que a arqueóloga descobriu – sem lugar a qualquer dúvida – vestígios quase intactos e muito pormenorizados de uma casa da moeda que remonta ao reinado de D. João III e ao ano de 1525.

Até Agosto passado, quando os primeiros indícios dessa estrutura foram identificados pelos arqueólogos, sempre se duvidou da sua existência, dada a escassa informação até então produzida, embora o local se situe na Rua da Moeda. No rés-do-chão de um edifício camarário, que já foi centro de formação profissional e foi construído no final do século XIX, junto a um logradouro interior onde foi localizado o templo romano de Beja, a equipa de arqueólogos coordenada por Conceição Lopes, identificou então um conjunto de elementos que associou claramente a uma casa da moeda.

À medida que os trabalhos decorriam, no final do ano passado, foram surgindo materiais e moedas, “umas preparadas para a cunhagem e outras já cunhadas”, bem como cadinhos usados na fundição do cobre, descreve a arqueóloga, ao mesmo tempo que aponta um espaço aberto entre os alicerces do edifício, onde foram descobertos “vários quilos de moedas de cobre”.

O sítio do martelo, ou martelete, que cunhava a moeda mesmo ao lado da fundição e por de cima de uma casa árabe, completam a identificação dos “vestígios [deste género] mais completos existentes em Portugal”, salienta Margarida Ortigão Paes Leme, responsável pelo Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa, suportando a sua posição na informações que lhe foram prestados por Conceição Lopes.

Num rectângulo com cerca de 1,5 metros por 70 centímetros, que ainda se encontra bem definido, “sentava-se o administrador que fazia a gestão de todo o dinheiro” cunhado no local, assinala a arqueóloga da Universidade de Coimbra. A sua localização permitia-lhe vigiar todas as operações, desde a fundição até à cunhagem das moedas, evitando assim os furtos de ceitis (moedas de cobre) que não eram feitos com moldes, mas sim cunhados em pedaços de metal cortados à tesoura, apresentando-se mais quadrangulares do que redondos.

A dimensão e a importância do achado já suscitaram o interesse de arqueólogos espanhóis envolvidos nas escavações de uma casa da moeda em Valência, que solicitaram aos colegas portugueses partes de alguns cadinhos para um estudo que está a decorrer numa instituição inglesa. Margarida Ortigão revelou ao PÚBLICO o seu interesse pelo achado, lembrando que existem documentos na Casa da Moeda de Lisboa que fazem referência a Ruy Lopes, vedor (administrador na corte) de D. João III e ao seu projecto da casa da moeda em Beja.

Parceria público-privada

Os ceitis de Beja poderão constituir um bom exemplo da produção de moeda atribuída a privados. Os especialistas admitem que tenha sido caso único, pois não é conhecida experiência semelhante.

Conceição Lopes identifica na concessão feita a Ruy Lopes todos os contornos de uma parceria público-privada, com uma diferença: “Os capitais eram totalmente privados”. Um documento arquivado na Torre do Tombo confirma que o vedor do rei piedoso (filho de D. Manuel I) tinha obtido licença para “descobrir minas de azougue [mercúrio] e cobre na cidade de Beja e seu termo, e, como a exploração destas minas lhe acarretaria grande despesa, el-rei lhe concedeu que ele, do cobre que tivesse, pudesse mandar lavrar [cunhar] moeda de ceitis em uma casa que mandaria fazer de muros adentro daquela cidade.”

As condições da concessão atribuída por diploma assinado em Évora a 8 de Setembro de 1524 definiam que “ele [Ruy Lopes] não pagaria, em sua vida, nenhum direito da moeda que lavrasse; que os oficiais empregados neste mister seriam equiparados aos da Casa da Moeda de Lisboa; que a mercê seria só durante a vida de Ruy Lopes, e que, por seu falecimento, el-rei tomaria conta da casa, com todos os aparelhos, pagando tudo aos herdeiros pelo preço que valesse” ao tempo da avaliação.

Do acervo arqueológico já recolhido sobre a história da cidade de Beja do período romano, muçulmano, medieval e moderno, e descoberto no perímetro onde foi localizado o fórum romano, será feita, em breve, uma exposição pública nas montras de 25 estabelecimentos comerciais da cidade. Conceição Lopes justifica a iniciativa com a necessidade de fazer da população o “fiel depositário” do espólio recolhido.

“Faz-se o que é possível”, argumenta a arqueóloga, lamentando a paragem forçada na pesquisa, tanto nos vestígios do fórum romano como na casa da moeda. O espaço não está contemplado no projecto do futuro Centro de Arqueologia e Artes de Beja, que a Câmara local vai candidatar no próximo ano aos fundos comunitários, e não há verba para continuar os trabalhos.

“Vamos nós tentar obter mais financiamento”, adianta Conceição Lopes, criticando o facto de o espaço que está a ser pesquisado há mais de uma década ser apenas considerado “reserva arqueológica”.

Carlos Dias

 

(Retirado do Jornal online “Publico”, do dia 3 de Maio de 2013)

 

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